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Mãe menininha

Vitória, 17 anos, está terminando o ensino fundamental enquanto espera o segundo filho

Fotos: João Gabriel

A estudante com seu filho mais velho, Anthonny: "quero que eles terminem no tempo certo, diferente de mim"

Muito antes da porta abrir e revelar o interior da pequena casa, eu posso ouvir a vida que ali existe. O som de água corrente, o rádio ligado tocando algum sertanejo universitário, a máquina de lavar ligada. Bato na porta duas vezes e uma jovem abre. Vitória, que é minha prima, me convida a entrar. Observo alguns brinquedos espalhados pelo chão, no meio do estreito corredor que serve de sala de estar.


– Onde tá o Anthonny? – Indago, curioso, enquanto a sigo até o quintal.
– Ele tá dormindo, na casa de mãe.

A “mãe”, nesse caso, era a avó. Uma senhora de 80 anos que possui um braço praticamente imobilizado devido a um acidente, alguns anos atrás. A mãe "de verdade" da jovem tem 51 anos e trabalha o dia todo em uma confecção de roupas. O pai abandonou as duas quando Vitória tinha dois anos idade. Se veem raramente. Vitória tem 17 anos, engravidou aos 15 e está cursando a fase 4 do Travessia, Programa de Aceleração de Estudos de Pernambuco. A fase 4 do programa corresponde a 7ª e 8ª séries do ensino fundamental. Ela teve que deixar os estudos por um ano por causa de seu filho. A jovem vai assistir aula à noite, já que sua mãe chega no fim da tarde do trabalho e pode ficar com o neto para ela ir à escola. Ela me conta que quer terminar os estudos o mais rápido possível e completa: “quero que meus filhos terminem no tempo certo, diferente de mim”.

O quintal é um quadrado pequeno e percebo que a geladeira está fora de lugar, atravessada no meio da cozinha. O eletrodoméstico tinha sido arrastado para abrir espaço para a máquina de lavar, por causa da tomada.

– Você mudou a geladeira de lugar sozinha? – Fico surpreso.
– Sim, né. Não tinha mais ninguém pra fazer isso.


Ela deixa as roupas molhadas de lado e voltamos para o corredor-sala.


– Você não devia ter mudado isso sozinha, é pesado.


A garota, grávida pela segunda vez, dá de ombros. A ação não significa indiferença, mas sim falta de opção. Se ela não arrastar a geladeira sozinha para poder colocar a máquina de lavar mais perto, quem iria? O pai de seus dois filhos, dezoito anos e fora da escola, trabalha em outra cidade e só pode visitá-los nos fins de semana. Ela tinha 15 e ele 16 quando tiveram a primeira criança, um garoto. A sua segunda gravidez, desta vez uma menina, é de risco: ela está em uma posição difícil dentro do ventre, por este motivo Vitória não pode pegar peso, fazer esforço ou ter estresse. Por esta razão, ela deixou de trabalhar na feira da cidade, de onde ela tirava seu sustento desde o nascimento de seu primeiro filho. Há algumas semanas ela passou mal durante uma aula. Sua pressão baixou, chamaram uma ambulância e ela foi para a Casa de Saúde Bom Jesus, hospital municipal especializado para mulheres grávidas. Lá, Vitória descobriu ser comum esse tipo de coisa acontecer numa gravidez de risco. Mesmo assim, ela arrastou a geladeira porque mais ninguém podia fazê-lo.


Apesar de estar prestes a ser mãe pela segunda vez, ela ainda é uma menina. Uma menina que carrega outra dentro de si. E que, em sua solidão, empurra a geladeira de um lado para o outro.

Texto: João Gabriel Lourenço

A gravidez na adolescência ainda é a principal causa da evasão escolar entre jovens e adolescentes. Um estudo publicado pelo Ministério da Educação (MEC) com pessoas de 15 a 29 anos que pararam de estudar, revelou que 18,1% das meninas interromperam os estudos ao engravidar. Já entre os rapazes, esse número foi de 1,3%.  Um artigo publicado na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), mostrou que, entre mulheres estudantes do Ensino de Jovens e Adultos (EJA), 85% deixou de frequentar aulas para cuidar dos filhos.


Nesta reportagem especial, acompanhamos algumas mães e pais que vivenciam este fenômeno. Conhecemos as histórias de Vitória Régia e Larissa da Silva, duas jovens que engravidaram aos 15 anos, quando estavam prestes a finalizar o Ensino Fundamental e iniciar do Ensino Médio. Também trazemos as rotinas de Natália, mãe de Caetano; Mariana e Ícaro, mãe e pai de primeira viagem; e Heloísa da Silva, que mudou de curso para melhor acompanhar a pequena Analu, de dois anos. São universitárias e universitários buscando conciliar a vida acadêmica aos cuidados de seus meninos e meninas.

O que percebemos em suas trajetórias é que a estrutura pública vem sendo insuficiente para quem não tem dinheiro para pagar os dispendiosos hoteizinhos. Em Caruaru, cidade na qual a maioria das personagens mora, a Gerência Geral de Educação Infantil (GGEI), informa que existem 2.840 crianças aguardando por uma vaga nas creches. O tema é corrente na gestão da prefeita Raquel Lyra (PSDB). Segundo a prefeitura, quatro novas creches foram inauguradas, seis reformadas e, de acordo com a prefeitura, nove estão em construção, três na zona rural do município e seis na urbana. Nas universidades federais, também há maior demanda que estrutura para pais e mães (leia a respeito no link "A estrutura ausente").

 

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Professores:

Fabiana Moraes 

Ricardo Sabóia

Técnica:

Maria Duda Moendy

Repórteres:

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Petryk Lucas Soares Galindo

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